Com dados inéditos do GMTI 2025 e uma estratégia estruturada de certificação e acolhimento, a Espanha transforma sua herança islâmica em ativo econômico de primeira grandeza — e oferece lições valiosas para o setor global.
O turismo muçulmano global atravessa um momento de expansão histórica. Segundo o Índice Global de Viagens Muçulmanas 2025 (GMTI), publicado pela Mastercard em parceria com a CrescentRating, as chegadas internacionais de viajantes muçulmanos atingiram 176 milhões em 2024 — uma alta de 25% em relação a 2023 —, com projeção de alcançar 245 milhões até 2030. Para essa data, o gasto total desse segmento deve superar US$ 230 bilhões.
Nesse cenário de crescimento acelerado, um país europeu chama atenção pelo movimento ousado e estruturado que realizou: a Espanha. Impulsionada pela Turespaña — o Instituto de Turismo da Espanha — em parceria com plataformas especializadas como a HalalTrip, a Espanha lançou o guia “Spain for Muslim Travelers”, disponível em inglês e árabe, consolidando uma oferta Muslim-friendly que vai muito além da gastronomia Halal. A iniciativa posiciona o país como referência de hospitalidade islâmica na Europa Ocidental — e os números por trás dessa estratégia são expressivos.
Os Números que Justificam a Estratégia
A aposta espanhola não é sentimental — é econômica. Em 2024, a Espanha recebeu 515.000 visitantes provenientes dos países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Omã, Catar, Bahrein e Kuwait —, o que representa um crescimento de 18% em relação a 2023 e o dobro das cifras pré-pandemia.
O perfil econômico desse viajante explica o entusiasmo da Turespaña. Em 2023, os turistas do CCG gastaram em média 2.622 euros por viagem — quase o dobro da média geral dos turistas internacionais (1.362 euros) —, com um gasto diário de 304,9 euros, contra 149 euros do turista médio estrangeiro. A estância média gira em torno de sete dias, e o perfil geral aponta famílias numerosas com apreço por experiências de luxo, exclusividade e personalização.
No total, a Espanha recebeu cerca de 94 milhões de visitantes internacionais em 2024 — um recorde histórico, 10% acima de 2023 —, e o segmento muçulmano aparece como uma das fatias mais lucrativas e resilientes desse crescimento.
Al-Andalus como Ativo Estratégico
A Espanha possui um diferencial que nenhum outro país europeu pode replicar: quase oito séculos de presença islâmica em seu território. A região da Andaluzia — coração histórico do Al-Andalus — concentra os monumentos mais emblemáticos desse legado, declarados Patrimônio Mundial pela UNESCO.
Cidades como Córdoba, Sevilha, Granada e Málaga são os pilares do roteiro Muslim-friendly espanhol, combinando a visitação a monumentos icônicos — como a Alhambra e a Mesquita-Catedral de Córdoba — com uma infraestrutura de serviços adaptada às necessidades de fé dos viajantes muçulmanos.
Para o viajante muçulmano contemporâneo, esses espaços não são apenas atrações turísticas: são uma reconexão com uma civilização que moldou a ciência, a filosofia, a arquitetura e a gastronomia do mundo ocidental. A Torre da Giralda, em Sevilha — originalmente um minarete —, e o Palácio de Alhambra, em Granada, são testemunhos vivos de uma sofisticação arquitetônica que ainda impressiona séculos depois.
A Andaluzia atrai especialmente os turistas do Golfo Pérsico pelo legado árabe da região e pela oferta turística Halal, tanto em alojamentos como na gastronomia — elemento reforçado pelos voos diretos e conexões que partem das principais cidades do Golfo.
O que o Guia Cobre: Hospitalidade Halal como Experiência Integral
Um dos pontos mais relevantes da iniciativa espanhola é a compreensão de que o turismo Halal vai muito além da alimentação certificada. O guia “Spain for Muslim Travelers” — e a estratégia mais ampla da Turespaña — aborda cinco dimensões que definem a experiência do viajante muçulmano moderno:
Alimentação certificada. A Turespaña lançou o guia Muslim-friendly para destacar a oferta Halal do país, promovendo não apenas Andaluzia, mas também destinos como as Ilhas Baleares, as Ilhas Canárias, Valência e Sevilha. Restaurantes Halal estão disponíveis nas principais cidades, com culinárias que vão da espanhola tradicional à árabe, paquistanesa, indiana, libanesa e francesa.
Infraestrutura espiritual. Mesquitas ativas nas principais cidades garantem ao viajante acesso às orações diárias e à Jumu’ah. Madrid abriga o Centro Cultural Islâmico — a maior mesquita da Espanha — com serviços, aulas de Alcorão e espaço para a oração da sexta-feira. Barcelona conta com a Masjid Tariq Ibn Ziyad, nomeada em homenagem ao general muçulmano que chegou à Península Ibérica.
Acomodações adaptadas. O Parador El Saler se destaca pelos serviços Muslim-friendly, incluindo alimentação Halal sob demanda, quartos livres de álcool e opções de piscina privativa — uma característica cada vez mais valorizada por viajantes Halal.
Sensibilidade cultural da equipe. A Turespaña organizou “Muslim-Friendly Tourism Familiarisation Trips” — viagens de familiarização — para profissionais do setor, ajudando hotéis, restaurantes e outros prestadores de serviços a compreender as necessidades do viajante muçulmano.
Calendário adaptado. O guia inclui orientações sobre horários de funcionamento adaptados durante o Ramadã, garantindo que restaurantes e atrações estejam preparados para receber viajantes em jejum e acomodar as refeições do iftar e do suhoor.
A Espanha no Contexto da Revolução do Turismo Halal Europeu
A iniciativa espanhola não é um movimento isolado — ela faz parte de uma tendência mais ampla de reposicionamento de destinos europeus para capturar um mercado em forte expansão.
Países como Alemanha, Croácia, Grécia e Suécia também investem em infraestrutura e comunicação Muslim-friendly, reconhecendo o potencial econômico do segmento. A Alemanha, por exemplo, lançou seu próprio guia Muslim-friendly com consultoria da CrescentRating, enquanto a Croácia avança com certificações Halal em serviços turísticos costeiros.
O que diferencia a Espanha nesse grupo é a combinação única de três fatores: a profundidade do legado islâmico, a escala da infraestrutura turística já consolidada e a velocidade com que a Turespaña está convertendo esses ativos em proposta de valor estruturada para o segmento muçulmano.
O mercado global de turismo Halal foi avaliado em US$ 301,9 bilhões em 2024 e deve atingir US$ 499,7 bilhões até 2032, com crescimento anual de 6,5%. A Europa, com 24% de participação de mercado em 2024, é a segunda região mais relevante globalmente — e a Espanha está bem posicionada para liderar esse crescimento no continente.
As Tendências que Moldam o Viajante Muçulmano de 2025
O relatório GMTI 2025 identifica transformações importantes no perfil e nas expectativas do viajante muçulmano global, que qualquer destino precisa compreender para competir nesse mercado:
Há uma demanda crescente de viajantes independentes — especialmente mulheres viajando sozinhas — que priorizam valores pessoais em suas escolhas de destino. Acessibilidade, turismo regenerativo e retiros de desintoxicação digital transitam de interesses de nicho para requisitos mainstream.
Viajantes muçulmanos adotam ferramentas digitais que oferecem acesso simplificado a serviços alinhados à fé e experiências personalizadas. Ambientes livres de álcool, gastronomia Halal certificada, espaços de oração, piscinas e spas com separação de gêneros tornam-se exigências essenciais.
Para a Espanha, que historicamente atraía o viajante do Golfo pela herança cultural e pelo clima, o desafio agora é incorporar essas novas dimensões — bem-estar, espiritualidade e digitalização — em sua proposta de valor Muslim-friendly.
O que o Brasil Pode Aprender com esse Movimento
Para um país como o Brasil — que ocupa posição de destaque no comércio internacional Halal, especialmente nas exportações de proteína animal para países árabes e islâmicos —, a estratégia espanhola oferece uma lição valiosa sobre como transformar proximidade cultural e credenciais de autenticidade em vantagem competitiva sustentável.
O turismo Halal ainda é um segmento emergente no Brasil, mas com potencial considerável: o país possui recursos naturais únicos, culinária diversificada e uma comunidade muçulmana crescente que pode atuar como ponte cultural. A falta de infraestrutura certificada e de uma estratégia nacional de posicionamento no segmento é, ao mesmo tempo, um desafio e uma oportunidade para destinos e operadores que queiram se antecipar.
O exemplo espanhol demonstra que o turismo Halal de alto valor não se constrói apenas com restaurantes certificados. Ele exige uma cadeia completa de conformidade e acolhimento — da hospedagem ao lazer, do treinamento da equipe à comunicação em língua árabe — sustentada por uma certificação séria e auditada.
Conclusão: Herança como Estratégia, Certificação como Fundamento
A Espanha oferece ao mundo um caso de estudo sobre como converter patrimônio histórico em produto turístico premium para o mercado muçulmano. Mas o sucesso dessa estratégia repousa sobre um fundamento inegociável: a credibilidade da certificação Halal que sustenta cada restaurante, cada hotel e cada experiência oferecida ao viajante.
Sem essa base sólida de verificação e auditoria, o guia mais bem produzido do mundo não passa de uma promessa vazia. É a integridade do processo — visível para o viajante muçulmano em cada detalhe da sua experiência — que converte um destino em referência e um visitante em embaixador.
Em um mercado que projeta 245 milhões de viajantes até 2030, os destinos que entenderem isso primeiro terão uma vantagem que dificilmente poderá ser revertida.
Fontes consultadas: Mastercard-CrescentRating Global Muslim Travel Index 2025 (GMTI 2025); Turespaña / Instituto Nacional de Estadística (INE); CrescentRating Magazine; Credence Research — Halal Tourism Market Report 2032; CNN España; Infobae; Hosteltur; Travel and Tour World; HalalTrip; Tayyebah Academy.
Artigo elaborado por Marc Daher, Diretor Geral do Centro Halal da América Latina®, com base em fontes internacionais verificadas.
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