Mercado Halal Internacional
O Brasil é o maior exportador mundial de proteínas halal, mas mais de 90% da pauta ainda são commodities. Biscoitos, chocolates, massas, laticínios e produtos amazônicos com certificação halal representam a fronteira de maior margem — e o país ainda mal começou a explorá-la.
Há uma assimetria notável no mercado halal brasileiro: o país é líder mundial no fornecimento de proteínas certificadas e o maior exportador de alimentos para a Organização para Cooperação Islâmica (OCI), mas a maior parte do que vende para esses mercados ainda sai da porteira sem processamento. Frango in natura, carne bovina, açúcar, grãos e café dominam a pauta. Os produtos industrializados — aqueles com maior valor agregado, maiores margens e menor exposição à volatilidade de commodities — representam uma fatia ainda pequena das exportações halal brasileiras.
Dados da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira e da ApexBrasil, indicam que o Brasil exportou US$ 26,44 bilhões para os países da OCI em 2025, consolidando-se como o maior fornecedor do bloco. A avaliação das próprias entidades do setor, porém, é direta: a pauta é prevalente em produtos básicos, e há espaço relevante ainda inexplorado nos segmentos industrializados e de maior valor agregado.
O que o Brasil vende — e o que ainda pode vender
- Hoje (pauta dominante): frango in natura, carne bovina, açúcar, soja, milho, café, arroz
- Crescendo: alimentos processados, ingredientes industriais, óleos vegetais especiais
- Fronteira ainda pouco explorada: biscoitos, massas, chocolates, sorvetes, laticínios, bebidas não alcoólicas, cosméticos, produtos amazônicos (açaí, castanha, cupuaçu)
- Número de categorias exportadas (NCMs): saltou de 190 para 343 entre 2023 e 2024 — sinal de diversificação em curso
- Empresas exportadoras no Projeto Halal do Brasil: cerca de 150, com crescimento de 80% em um ano
Por que os industrializados valem mais — e por que o Brasil ainda não chegou lá
A lógica econômica é simples: uma tonelada de frango in natura tem um preço. A mesma tonelada processada, temperada, embalada com marca própria e certificada para o mercado islâmico vale significativamente mais — e fideliza o consumidor de maneira que o produto bruto não consegue. Nos mercados muçulmanos mais exigentes, como Malásia e Indonésia, esse diferencial é ainda mais visível: produtos com certificação halal ocupam as gôndolas principais dos supermercados, enquanto os itens sem certificação ficam em áreas separadas, sinalizadas como inadequadas para o consumidor muçulmano.
O obstáculo histórico foi de escala e acesso. Empresas de grande porte do agronegócio já detêm a infraestrutura logística e os relacionamentos comerciais para exportar commodities em volume. Para a indústria de alimentos processados — em grande parte composta por empresas de médio porte —, os requisitos de certificação, adequação de processos produtivos e conhecimento dos mercados islâmicos representaram barreiras de entrada elevadas. Isso está mudando.
Temos uma posição importante em carnes e commodities que temos de preservar. Mas o crescimento virá da venda de valor agregado.
Osmar Chohfi, presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira
O açaí como caso de referência: produto amazônico abre caminho
Um dos exemplos mais citados no setor é o açaí. O produto, por muito tempo desconhecido fora do Brasil, conquistou mercado relevante junto a consumidores árabes e muçulmanos — não apenas pelo valor nutricional, mas pela história de origem e pela possibilidade de certificação halal que agrega credibilidade ao produto. O açaí tornou-se uma referência concreta de que produtos amazônicos brasileiros, com diferencial de origem e certificação, têm espaço nos mercados islâmicos de alto valor.
A mesma lógica se aplica a outros produtos da sociobiodiversidade brasileira: castanha-do-pará, cupuaçu, buriti, priprioca e uma série de ingredientes com apelo funcional e sustentável que dialogam diretamente com as tendências de consumo consciente que hoje moldam o mercado halal global — especialmente nas gerações mais jovens de consumidores muçulmanos no Sudeste Asiático e no Golfo.
Digitalização da rastreabilidade: o que mudou para as médias empresas
Um dos fatores que mais contribuiu para ampliar o acesso de empresas de médio porte ao mercado halal nos últimos anos foi a digitalização dos processos de rastreabilidade. Ferramentas que antes exigiam estruturas técnicas e operacionais inacessíveis para indústrias menores tornaram-se mais acessíveis e baratas — o que reduziu o custo de conformidade com as exigências dos mercados importadores islâmicos.
Dados da ABIA confirmam o movimento: entre 2020 e 2025, as exportações de alimentos industrializados avançaram de 19% para 27% do faturamento do setor. E o crescimento veio especialmente de destinos islâmicos: as vendas para a Liga Árabe subiram 68,6% no período, chegando a US$ 10,3 bilhões. Indonésia (+78,8%), Malásia (+64,9%) e Bangladesh (+64,8%) também registraram altas expressivas — todos mercados que exigem, para o produto processado, certificação halal reconhecida internacionalmente.
Os países islâmicos combinam crescimento populacional, aumento de renda e forte dependência de importações. A indústria brasileira de alimentos reúne escala, eficiência e sistemas sanitários reconhecidos, o que fortalece sua competitividade e amplia oportunidades de longo prazo.
Cleber Sabonaro, gerente de Economia e Inteligência Competitiva da ABIA
O que falta: certificação acessível para a indústria de médio porte
A principal barreira que ainda separa a indústria brasileira de médio porte do mercado halal de industrializados não é tecnológica nem logística — é a certificação. Para exportar para os países da OCI com produto certificado, a empresa precisa de um organismo certificador com acreditação reconhecida nos mercados de destino. Certificações acreditadas pelo GAC (Gulf Accreditation Center), por exemplo, são aceitas nos países do Golfo e amplamente reconhecidas em outras nações islâmicas.
O processo envolve auditoria da cadeia produtiva, adequação de insumos, controle de contaminação cruzada e emissão de certificados por lote ou por produto. Para uma empresa que já opera com boas práticas de fabricação e rastreabilidade digital, o passo até a certificação halal é significativamente menor do que aparenta — e o retorno em acesso a mercado é imediato, especialmente nos segmentos em que o volume de concorrentes certificados ainda é baixo.
| Segmento | Potencial halal | Status atual no Brasil |
|---|---|---|
| Biscoitos e massas | Alto — consumo diário em mercados islâmicos | Crescimento incipiente, poucos exportadores |
| Chocolates e doces | Alto — especialmente para Golfo e Malásia | Presença ainda limitada |
| Laticínios certificados | Crescente — demanda por queijos e iogurtes | Em expansão, exige controle rigoroso |
| Cafés especiais | Alto — mercado premium em expansão no Oriente Médio | Consolidado em grão; processado ainda cresce |
| Produtos amazônicos | Diferencial único — origem, funcionalidade, sustentabilidade | Açaí abre caminho; demais ainda inexplorados |
| Cosméticos e higiene | Mercado halal além do alimento — tendência global | Pouquíssimas empresas brasileiras certificadas |
O momento é agora: convergência de fatores favoráveis
Três vetores convergem em 2026 para tornar este um momento especialmente favorável para a entrada de industrializados brasileiros no mercado halal. Primeiro, o Acordo Mercosul–União Europeia, em vigor a partir de maio, abre acesso preferencial a um bloco de 450 milhões de consumidores que inclui países onde a produção local de carne e alimentos halal é restrita por lei — criando demanda estrutural por importados certificados. Segundo, o crescimento acelerado do Sudeste Asiático como destino, com Indonésia e Malásia ampliando as compras de alimentos brasileiros em quase 80% nos últimos cinco anos. Terceiro, a diversificação que o contexto geopolítico no Oriente Médio está forçando — empresas e importadores que antes dependiam de rotas únicas hoje buscam ativamente novos fornecedores com certificação confiável.
Para a indústria brasileira de alimentos processados, a mensagem é direta: a certificação halal não é um custo adicional — é o ingresso para um mercado de quase 2 bilhões de consumidores que cresce acima da média global e que, nos segmentos de industrializados, ainda tem poucos fornecedores do Brasil disputando espaço nas gôndolas.
Fontes: Câmara de Comércio Árabe-Brasileira — Projeto Halal do Brasil / Dados de exportação 2025; ABIA — Exportações de alimentos industrializados para mercados islâmicos 2020–2025 (07/04/2026); Portal do Agronegócio — Curso Gratuito Incentiva Empresas Brasileiras a Exportar para Mercados Islâmicos (02/02/2026); Mercoagro — Brasil abre novos mercados para seu alimento halal; Sebrae — Exportação: oportunidades para produtos com certificação halal; ApexBrasil — Dados de abertura de mercados 2025.
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