Mercado Halal · Agronegócio & Exportações · Regulamentação & Certificação Halal
Enquanto o debate sobre exportação de proteína brasileira se concentra no veto europeu e no esgotamento da cota chinesa de carne bovina, um movimento estrutural mais silencioso avança sobre o mercado que mais importa para a avicultura brasileira. A China deixou de ser apenas a maior compradora de frango do Brasil e tornou-se concorrente direta — precisamente nos mercados Halal do Golfo Pérsico, e precisamente no corte de maior valor agregado.
Existe uma assimetria comercial pouco discutida no comércio global de carne de frango: o animal é vendido em partes, e cada mercado quer partes diferentes. O consumidor do leste asiático valoriza pés, asas e miúdos. O consumidor do Oriente Médio compra frango inteiro e cortes específicos com certificação Halal. O consumidor europeu paga prêmio por peito desossado. Essa fragmentação de preferências é o que permite ao exportador maximizar valor — vendendo cada corte ao mercado que mais o valoriza.
É exatamente essa assimetria que a China está transformando em estratégia de exportação. E o efeito colateral recai sobre o corte que sustenta a margem da avicultura brasileira nos mercados islâmicos.
Os Números da Ascensão Chinesa
Segundo estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, as exportações chinesas de carne de frango cresceram 41% em 2025, alcançando quase 1,1 milhão de toneladas. Para 2026, a projeção é de 1,4 milhão de toneladas — volume que colocaria a China como terceiro maior exportador mundial da proteína, atrás apenas de Brasil e Estados Unidos.
Em menos de uma década, o país saltou de participação marginal para 9,5% estimados das exportações globais em 2026. A base dessa expansão é a produção doméstica: a China já é o segundo maior produtor mundial de frango, com crescimento estimado pelo USDA em 7% em 2025 e mais 5% em 2026, alcançando 17,3 milhões de toneladas. Algumas estimativas setoriais apontam para expansão ainda maior, em ritmo de dois dígitos.
Em relatório publicado em 17 de julho de 2026, os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, do BTG Pactual, sintetizaram a implicação em termos diretos: mais oferta disponível para exportação significa mais concorrência e, mantidas as demais condições, pressão adicional sobre os preços globais do frango.
A Lógica do Corte: Por Que Isso Atinge o Brasil no Ponto Certo
O elemento decisivo dessa equação não é o volume total chinês, que permanece a menos de um terço do brasileiro. É a composição dos cortes.
A China continua importando grandes volumes de pés de frango, asas e miúdos — produtos de forte demanda no mercado consumidor local e de valor unitário relativamente baixo. Simultaneamente, exporta de forma crescente os cortes de demanda interna mais fraca. Entre eles, o peito de frango.
O peito de frango foi o corte mais exportado pelo Brasil nos últimos doze meses. Representou 22% do volume total das exportações brasileiras de carne de frango e apresentou um dos preços unitários mais elevados da pauta. E os principais destinos brasileiros para esse corte incluem a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos — dois mercados Halal de alto poder aquisitivo que estão geograficamente muito mais próximos da China do que do Brasil.
A conta é desconfortável. A China exporta justamente o corte que o Brasil mais exporta, para justamente os mercados onde o Brasil obtém suas melhores margens, com vantagem logística estrutural em distância e tempo de trânsito. E o corte que ela exporta é subproduto de uma preferência de consumo doméstico — ou seja, ela pode precificá-lo de forma agressiva sem comprometer a rentabilidade do abate, porque a receita principal vem de outros cortes vendidos internamente.
O Mercado Que a ABPA Chamou de Insubstituível
Ao comentar em julho de 2026 o impacto do veto europeu sobre a avicultura brasileira, o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, Ricardo Santin, apresentou uma comparação que se tornou involuntariamente reveladora.
Santin classificou a situação europeia como contornável mediante redirecionamento de embarques, lembrando que o Brasil já ficara quatro meses sem o mercado europeu no ano anterior por conta da influenza aviária e ainda assim fechara o ano com exportações positivas. Ponderou que a União Europeia responde por fatia inferior a 5% dos embarques nacionais de frango, ainda que compre predominantemente peito, produto de valor mais alto. E concluiu com a frase que interessa a esta análise: o difícil seria se o Oriente Médio fechasse — região que importou quase 30% do total das exportações brasileiras de frango no ano anterior.
A observação está correta em sua premissa e incompleta em sua conclusão. O Oriente Médio não vai fechar. Mas mercados não precisam fechar para serem perdidos — basta que um concorrente com vantagem logística e estrutura de custos assimétrica passe a disputar o mesmo espaço de prateleira. A ameaça ao mercado Halal do Golfo não virá de barreira sanitária ou de veto regulatório. Virá de preço.
Os números do primeiro semestre de 2026 já mostram movimento nessa direção. As exportações do agronegócio brasileiro para os países do Conselho de Cooperação do Golfo somaram US$ 2,58 bilhões, recuo de 1,06% sobre o mesmo período do ano anterior. A carne de frango, principal proteína Halal brasileira na região, caiu 9,99%, totalizando US$ 1,57 bilhão. As causas imediatas são logísticas e geopolíticas — mas a janela de retração coincide com a aceleração da oferta chinesa.
A Questão Halal Que Ninguém Está Fazendo
A cobertura brasileira sobre a ascensão chinesa no mercado de frango tem tratado o tema como disputa de commodity: volume, preço, logística, escala. Falta a essa análise a dimensão que define o acesso efetivo aos mercados do Golfo — a certificação Halal.
Exportar frango para Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Qatar, Omã ou Bahrein não é apenas questão de preço competitivo e conformidade sanitária. Exige abate conforme o rito islâmico, conduzido por sangrador muçulmano habilitado, com certificação emitida por organismo reconhecido pelas autoridades do país importador, sob normas que cobrem desde os insumos de alimentação animal até a segregação de linha, o transporte e a armazenagem.
O Brasil construiu essa infraestrutura ao longo de décadas. Possui o maior parque de abate Halal do mundo, com plantas dedicadas, equipes de sangradores muçulmanos, sistemas de segregação e histórico de reconhecimento pelas principais autoridades importadoras. Essa é a barreira de entrada real do mercado Halal — e é significativamente mais difícil de replicar do que capacidade produtiva.
A pergunta que a cobertura setorial não está fazendo é quanto dessa barreira a China já superou, e em que velocidade avança. Escala produtiva pode ser construída em anos. Reconhecimento de organismos de certificação por autoridades do Golfo, habilitação de plantas, formação de equipes de abate ritual e histórico de conformidade auditada são processos de maturação mais lenta — mas não são intransponíveis, especialmente para um Estado com capacidade de mobilização industrial e diplomática como o chinês.
Enquanto essa barreira se mantiver, a competição chinesa no Golfo será limitada aos segmentos onde a exigência Halal é menos rigorosa ou onde o produto entra por canais que não demandam certificação plena. Quando ela ceder, a vantagem logística chinesa passará a operar sobre o mesmo mercado que hoje sustenta a margem brasileira.
A Convergência de Duas Pressões
O que torna 2026 particularmente delicado para a avicultura brasileira é a simultaneidade de duas pressões que operam em direções opostas sobre a mesma cadeia.
De um lado, a exigência regulatória europeia elevou o custo de conformidade. O Regulamento de Execução (UE) 2026/1189, publicado em 5 de junho, retirou o Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal ao bloco a partir de 3 de setembro, incluindo carne de aves. Segundo apuração setorial, a reinclusão depende de auditoria europeia prevista para a semana de 24 de agosto, com relatório final apenas no fim de setembro e eventual aval de comitê técnico em reunião de novembro. Para o frango, avalia-se que a questão seja solucionável em poucos meses — mas o custo de demonstrar conformidade permanente sobre insumos, tratamentos e segregação é permanente.
De outro lado, a entrada chinesa pressiona preços exatamente nos mercados de destino que absorverão o volume redirecionado da Europa. A ABPA projeta exportações brasileiras de carne de frango de até 5,875 milhões de toneladas em 2026, recorde histórico, e até 6,05 milhões em 2027. O volume continua crescendo. A questão é a que preço, e com que margem.
Custo de conformidade crescente somado a pressão de preço em mercado de destino é a definição operacional de compressão de margem. É possível manter volume recorde e perder rentabilidade simultaneamente — e os dados semestrais do Golfo, com queda de 9,99% em receita de frango, sugerem que o processo já começou.
O Que a Certificação Pode Fazer e o Que Não Pode
Diante de concorrente com vantagem logística e capacidade de precificação agressiva, competir por preço é estratégia de retorno decrescente. A alternativa disponível ao setor brasileiro é a diferenciação — e a certificação é o instrumento pelo qual diferenciação se torna verificável.
As normas Halal aplicáveis nos mercados do Golfo exigem rastreabilidade de cadeia que cobre insumos de alimentação animal, histórico de tratamentos veterinários e segregação em todas as etapas. As autoridades regulatórias da região vêm ampliando o rigor de verificação documental e a exigência de monitoramento auditável dos processos de abate. O conceito de Tayyib, que acompanha o Halal como segundo pilar da alimentação islâmica, trata de qualidade, salubridade, segurança e integridade do alimento — atributos que se demonstram com evidência, não com declaração.
Um exportador capaz de demonstrar, com documentação auditável, a integridade completa de sua cadeia Halal — origem da alimentação, ausência de substâncias restritas, segregação verificável, cadeia de custódia íntegra do campo ao contêiner — ocupa posição que não se disputa por preço. Essa capacidade é, hoje, a principal defesa estrutural da avicultura brasileira no Golfo.
Há uma ironia produtiva nesse quadro. A infraestrutura de rastreabilidade que a União Europeia exigiu do Brasil e que o país não conseguiu demonstrar é substancialmente a mesma que sustentaria a diferenciação Halal frente à concorrência chinesa. O investimento que hoje é tratado como custo de conformidade regulatória imposto de fora é, do ponto de vista competitivo, investimento em barreira de diferenciação no mercado que a ABPA identificou como insubstituível.
O Que Observar
Três indicadores merecem acompanhamento nos próximos trimestres.
O primeiro é o reconhecimento de organismos de certificação Halal chineses pelas autoridades do Golfo e do Sudeste Asiático. É o indicador antecedente mais confiável de que a competição chinesa está prestes a alcançar o segmento Halal premium. Enquanto não houver reconhecimento amplo, a concorrência permanece limitada.
O segundo é o comportamento do preço unitário do peito de frango brasileiro nos destinos do Golfo. Volume estável com preço unitário em queda é o sinal de que a pressão competitiva chegou. A Câmara de Comércio Árabe-Brasileira publica dados semestrais que permitem esse acompanhamento.
O terceiro é a composição da pauta chinesa de exportação por destino. Se os embarques chineses de peito passarem a se concentrar em países do Conselho de Cooperação do Golfo em vez de mercados asiáticos e africanos de menor exigência, o movimento terá saído do plano da projeção para o da disputa efetiva.
A China levou menos de uma década para sair de participação marginal e chegar ao terceiro lugar entre os exportadores mundiais de frango. O Brasil levou décadas para construir a infraestrutura Halal que hoje protege sua posição no Golfo. Essa infraestrutura é o ativo mais difícil de replicar que o setor possui — e o único que não se perde por diferença de frete.
Para entender o contexto regulatório em que essa disputa se insere, leia a série do Centro Halal sobre o veto europeu às carnes brasileiras — em especial O Brasil Entre Quatro Réguas, O Capital Islâmico Não Espera e Rastreabilidade Halal do Campo à Mesa.
O Centro Halal da América Latina® assessora empresas brasileiras na construção de sistemas de conformidade integrados — compatíveis com as exigências simultâneas da União Europeia, do Golfo Pérsico, da Malásia e da Indonésia. Para avaliar como transformar conformidade Halal em diferenciação competitiva, entre em contato com nossa equipe.
Fontes principais: USDA — estimativas de produção e exportação de carne de frango da China (2025-2026); BTG Pactual — relatório setorial sobre expansão avícola chinesa, analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla (17/07/2026); Gazeta do Povo — “China passa de cliente a concorrente e já ameaça frango brasileiro” (julho/2026); ABPA — projeções de exportação de carne de frango para 2026 e 2027 e declarações do presidente Ricardo Santin (julho/2026); Money Times e InfoMoney — cobertura das projeções da ABPA (julho/2026); Câmara de Comércio Árabe-Brasileira — dados de exportação do agronegócio brasileiro para países do Conselho de Cooperação do Golfo, primeiro semestre de 2026; Comissão Europeia — Regulamento de Execução (UE) 2026/1189, Jornal Oficial da União Europeia (05/06/2026); The AgriBiz — apuração sobre cronograma de auditoria da DG SANTE (24/07/2026); OIC/SMIIC 23:2022 — General Requirements for Halal Animal Feeding Stuffs; GSO 2055-1 e GSO 2055-2:2021; UAE.S 2055-2.
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